


"O fim do homem é o prazer" (David Hume)

É sexta-feira.
E toda sexta-feira, na hora do almoço, ele me faz caminhar apressada pelas ruas de saia, salto alto e sem calcinha.
Faço isso por prazer. Dele e meu.
Faço isso porque sinto serpentes rastejando sob minha pele, porque me sinto encharcada de desejo por ele, porque cada passo me conduz ao abismo. Eu quero pular.
Eu o espero sempre debaixo da mesma árvore, saia balançando ao vento, sorriso derramado nos lábios e no meio das coxas escorrendo todos os devaneios possíveis.
Paixão.
Fiquei sem eixo, perdi boa parte da autocrítica. Porque com ele, sou do avesso.
Porque apesar do quarto barato do motel de sempre, em que você dá a cara a tapa ao entrar, ele me faz sentir-se limpa. Faço isso porque ele me chama de linda, de meu anjo, porque lambe minha cicatriz, suga seus dedos depois de tocar meu sexo, porque acaricia meus cabelos enquanto descanso minha cabeça em seus ombros. É no peito dele que deposito minhas esperanças mais absurdas e desfaço a rigidez da realidade.
Faço isso porque mesmo tendo assinado contrato de exclusividade com outras pessoas, ele faz juras fidelidade a mim (e eu acredito) sem pedir o mesmo.
Eu faço isso porque quero demais dele. Talvez seja uma forma de compensá-lo desses meus dolorosos anseios de eternidade desta paixão.
Já ele faz isso porque passa a manhã inteira se excitando, imaginando os outros homens me olhando, percebendo a ausência da calcinha e me desejando. Ele sabe que neste dia, na sexta-feira, eu serei só dele.
(Os homens são tão primitivos...)

A Primavera começou mais cedo.
E a primavera é isso: um sorriso bobo nos lábios, um suspiro repentino, um comichão entre as pernas. O dia mais luminoso, o vento bagunçando os cabelos, as folhas tão verdes quanto os olhinhos dele.
A rosa em esplendor.
O zangão...
Não se pensa que a primavera terminará, abstraímos essa informação. O que importa é essa sensação de vida, de fecundação, de exuberância. O que importa é que dizemos adeus aos dias escuros e frios do inverno num estalar de dedos. Aliás, nas pontas dos dedos: estrelas. Na ponta da língua: arco-íris. De ponta aponta: sol.
A Primavera começou mais cedo, o menino-deus trouxe-a em agosto, só pra mim...