


Fragmentos Do Homem - Parte II: Asas

Img.:Centro Coreográfico de Montemor
(João Miguel Santos - site: www.olhares.com)
Era no momento em que começava a vê-lo se vestir que mais me dava tristeza e a sensação de desamparo do mistério de sua presença. Beirava o panfletário, principiava-me em reorganização formal, canônica, e em algumas linhas, apenas observava as metáforas caindo.
Mais eis que, quando já soletrava a última estrofe, aquela que vem ao som de marcha fúnebre, ele consegue reescreve-la, trocando os fonemas de lugar, sacudindo os ombros para minha agonia, metamorfoseando-a em doce melodia e desembesta a dançar, completamente desavergonhado, se solta, liberto e rebola seus quadris, arabescos enigmáticos.
Torna pálido o Sol da tarde que inicia-se lá fora, tamanha luz que irradia enquanto dança.
Ele dança... Angelical, divino, celestial...
Meu anjo matreiro dança, anarquiza meu céu, enquanto o demônio espiona, sem coragem para interferir.
Joga fora as armaduras e dança para mim, me fazendo esquecer das amarras em nossos dedos, roçando em mim seus sorrisos. E me arremesso por inteira, sem senso, já não adianta tentar dissimular, então, despojo-me também e bem mais, incandescente, escapando pelas pálpebras e lábios, esses traidores, em evidente nudez, os versos desmaquiados e desmetrificados, transformando as palavras mudas em latejantes, que espocam em notas musicais surgindo diante de sua ribalta de suave contentamento e evolam em asas coladas que se abrem para mim após o meio do dia.
Ele dança...
Já não sou mais só volúpia e desejos tremidos. Sou letra da música que o torna tão irresistivelmente encantador. Letra que basta para justificar o inusitado bailado. Sou coração compassado. Sou a existência absoluta e real diante dele, meu verbo bendito, dançando...
Ele dança...
...fingindo que as asas em seus pés são minhas...